Ao longo da nossa vida é comum arrastarmos para debaixo do tapete todas as questões que vamos acumulando. Esse processo ocorre mesmo de forma inconsciente. Essas questões não resolvidas impactam no nosso bem-estar mesmo ali, escondidas da nossa vista, mesmo que não dediquemos a elas um segundo pensamento. Porém, com a chegada de um filho, é incrível como tudo isso ressurge de tal maneira que é impossível continuar ignorando. Mas mesmo assim, acreditem, há pais e mães que preferem ignorar do que encarar esse momento como uma grande oportunidade de autocura. Pois é exatamente disso que se trata. Os filhos são uma oportunidade para olharmos para dentro de nós e enxergamos aspectos inconscientes que estavam ali o tempo todo e não nos demos conta. Por isso, devemos ver esse momento como uma grande oportunidade que nos foi dada para evolução, para vivermos uma vida plena e feliz, deixando para trás, porém agora resolvidas, essas questões que impactavam no nosso bem-estar ao mesmo tempo em que vamos construindo a educação dos nossos filhos. Nesse processo de autocura, autoeducação e educação dos nossos filhos há pelo menos cinco premissas que precisam ser observadas. A primeira delas parte do princípio de que a educação do seu filho e a sua autoeducação não estão dissociadas uma da outra. Pelo contrário, estão intimamente relacionadas. Junto com a responsabilidade que é a educação dos filhos surge uma necessidade de ser uma pessoa melhor e com isso vem todo um processo de crescimento, evolução e responsabilização. Sem a sua autoeducação não há técnica que resolva a educação dos filhos. Logo, essas duas coisas precisam caminhar juntas. A grande dificuldade é os pais enxergarem o nascimento dos filhos como uma oportunidade. Muitos pais passam a focar apenas na educação da criança, mas essa é uma conta que nunca vai fechar, pois você é a referência do seu filho e para educar você precisa estar bem ou pelo menos buscando estar bem consigo mesmo. Isso por que grande parte do processo de aprendizado da criança está fundamentado na imitação, ela quase sempre projeta em seus sentimentos e comportamentos aquilo que capta das pessoas mais próximas, em especial os pais e mais em especial ainda, a mãe. A segunda premissa é compreender que o interesse genuíno que é despertado em você nos primeiros dias após o nascimento da criança deve ser mantido ou resgatado mais adiante. Nós, pais, temos uma tendência equivocada de nos primeiros meses de vida buscar avidamente conhecer todas as necessidades, compreender os sinais, entender os desejos, os comportamentos, as manifestações dos nossos filhos, mas depois mudamos completamente essa postura quando aquele ser começa a manifestar tudo isso de forma mais autônoma. Como uma ferramenta de proteção começamos a podar esses comportamentos e a impor aquilo que achamos ser certo ou errado. Como uma reprodução da forma que fomos criados nós passamos a agir de forma punitiva em face de tudo aquilo que não nos convém. O erro está em abandonar aquele interesse genuíno do PORQUÊ. Nós, em algum momento, passamos a focar apenas em O QUÊ. Pensamos: O que a criança está fazendo está errado de acordo com as nossas ideias de comportamentos ideais e, sendo assim, tal comportamento deve ser eliminado e quiçá punido. Mas em nenhum momento nós paramos para nos perguntar sobre as razões que fizeram com que aquela criança se comportasse de tal modo. Assim, resgate o interesse genuíno em tudo o que seu filho diz e faz e busque compreender a gênese desses sentimentos e comportamentos. Ah! e não se surpreenda quando você se encontrar na gênese, pois muito provavelmente você está lá. Pegue essa oportunidade de refletir sobre a sua autoeducação e depois na educação dos filhos. Lembre-se, elas caminham juntas. Mas atenção! Não é por isso que você vai deixar seu filho fazer o que ele quiser. Não estamos dizendo isso. Estamos dizendo que você precisa investigar o que está por trás de determinados comportamentos do seu filho, mas como terceira premissa já vamos dizer que é preciso definir regras e limites. Por que educar não é só entender. Na verdade, buscar compreender os comportamentos é o estágio inicial da educação, mas você ainda precisa estabelecer alguns parâmetros que seu filho deve observar e estes devem ser discutidos pelos pais que, juntos, vão estabelecê-los. Porém, é importante lembrar que esses limites não devem ser construídos de forma arbitrária. Lembra do que falamos anteriormente sobre a importância da observação? É assim que você vai mapear quais limites o seu filho precisa. Vale dizer que essa observação precisa ser desprendida de qualquer juízo prévio, pois apenas assim é possível identificar as reais necessidades do seu filho. Contudo, não é somente o seu filho que tem necessidades, vocês enquanto pais e como casal também possuem as suas próprias necessidades. Por isso, após mapearem as necessidades de ambos, estabeleçam os limites de modo que as contemplem e satisfaçam mutuamente. Entretanto, cada caso possui sua particularidade, de modo que obviamente haverá situações em que a necessidade de um vai se sobrepor a necessidade do outro, quando aquela for uma necessidade básica primordial e a outra for algo supérfluo. Tudo isso precisa ser levado em conta. Para não ficarmos apenas na abstração, podemos exemplificar alguns limites que podem ser discutidos e impostos pelos pais: hora de dormir, hora do banho, o tipo de alimentação, horário de alimentação, brinquedos e brincadeiras, dentre outras coisas. Eventuais exceções podem e devem ser discutidas pelos pais. Pronto! Observamos, conversamos e estabelecemos os limites. E agora? Agora chegou a hora de introduzir esses limites na rotina da criança. Isso será um desafio, visto que a criança irá reagir sempre que ela se deparar com esses limites. Sentimentos mistos podem ser desencadeados nesse processo, como raiva, tristeza e frustração e tais sentimentos podem se materializar através de um comportamento “desafiador”. É preciso compreender que essas crianças ainda estão aprendendo a lidar com esses sentimentos e muitas vezes elas não vão saber como extravasa-los. Essa é uma excelente oportunidade para os pais se conectarem com seus filhos, ao invés de reprimir esses sentimentos, lembre-se que eles são muito importantes para a formação da criança, apenas vivenciando-os ela vai aprender a lidar com eles. Esteja lá e apoie, mantenha-se calmo, pois é geralmente o momento mais difícil. Os pais tendem a querem reagir com rigidez e acabam interrompendo o processo da criança em lidar com seus sentimentos. Ah! e mais importante: Lembre-se do porquê tais limites foram estabelecidos. Por isso é tão importante discutir uma e outra vez antes de estabelecê-los, pois muitos pais, inseguros dos limites, acabam por ceder diante da reação da criança. Porém, se você tem segurança, sabe que esses limites foram pensados com vistas a proporcionar maior segurança, proteção e bem-estar do seu filho. Logo, a segurança, proteção e bem-estar do seu filho podem ser flexibilizados? Não, né? Então, fique calmo enquanto seu filho aprende a lidar com suas emoções, esteja presente, acessível e mantenha os limites.
